quarta-feira, 5 de março de 2014

Ficas e não sabes!

É meia-noite e vinte e cinco e apareceste!
Mais uma vez, sem avisar tal e qual como fizeste das outras vezes, entraste sem bater à porta, sem pedir permissão e ficaste como se já te sentisses em casa e quando menos esperei viraste costas e foste!
Mergulhada na saudade, enternecida pelas memórias que ficaram guardadas no baú da razão ou talvez seja mais do coração, assim mesmo lá de longe consegues fazer com que largue um sorriso. Aquele sorriso de felicidade de quem teve a sorte de partilhar momentos tão especiais e que mesmo tendo-te longe, ainda consegues voltar sempre que queiras, sem ser preciso um aviso prévio, uma permissão para entrar e tempo para ficar, porque tu já fazes parte e tomarás o tempo que quiseres, porque mesmo de longe continuas aqui. E no fundo se reparares bem, tu nunca chegas realmente a partir! 

terça-feira, 4 de março de 2014

Ao que vou não sei, sei que vou!

Saio porta fora e no fundo nunca sei ao que vou, sei apenas que vou. Vou com uma ideia na mente, um propósito no coração e quando chego sinto que tudo mudou.
Quando chego apercebo-me que o que vou trazer é muito mais do que o que levo.
Faço, por vezes, um desvio no meu de caminho, ou apenas percebo que o que parecia não é e ainda bem que não!
  Entrego-me à surpresa que me é reservada e deixo-me ficar sentada no baloiço que gentilmente me convidaram a sentar.
Nisto passa lentamente, ao meu lado, um estranho de voz enrouquecida e que de forma  delicada me convida ouvir as histórias dos seus escritos, numa voz desgastada pelo tempo e que  guarda o cansaço de uma vida trazida de um vai vem de recordações. Desatentamente aceitei o convite e acompanhei-o nas viagens feitas, que contava nas entrelinhas dos desabafos que o fazia acreditar que a idade não é entrave quando se quer muito algo e que a solidão, que por vezes sentia, essa era apenas por opção. Descreve-a com coragem de quem contraria o que no fundo sente e nisto balanço suavemente para trás e para a frente, neste baloiço que me foi dado e deixo-me ficar na descodificação de informação levada ora à razão, ora ao coração. Entre uma e outra tentativa tentava perceber com quem falava, mas acabei por me deixar levar apenas pelas palavras que soltava, no compasso da impaciência pela  chegada do escritor esperado.
Sorrio e percebo que o sentido não estava no propósito inicial, quando fui aquele lugar, mas sim no que esse propósito me estava a conduzir.
Ao propósito inicial percebo que o que lá fui fazer foi muito mais do que aquilo que contava. A ideia que trago é outra, o propósito tornou-se em realização e quando continuo o caminho, percebo que nada é por acaso e que quando saio não sei ao que vou, mas sei que vou!

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Cheiro a ti!

Encontrei-te numa prateleira, a ti não, ao teu cheiro!
Tal e qual sem nenhuma alteração, num saquinho que ainda sem pegar já sentia à entrada da loja, aquele cheiro de quando estou contigo. Encontrei-o e agarrei-o de imediato para que não esperasse mais ali, naquela prateleira. Para que não esperasse tal como estes anos todos que também nós tivemos que esperar…
Apeteceu-me levar o stock todo para te espalhar por todos os sítios por onde estou, para te poder sentir presente em todos eles. Cheira tão a ti mãe que não consegui largar nunca mais aquele saquinho, que nada mais da loja me conseguiu tirar atenção e cada vez que entro no carro, no meu quarto, sinto-te tão perto de mim apesar de estares longe.
É tão teu, é tão nosso, é tão próprio das minhas férias passadas contigo… É um saquinho que parece guardar lá todas as memórias onde consigo sentir os risos, as recomendações e sentir o teu cuidado comigo antes de sair à rua por causa do sol ou do frio, naqueles dias de quando estava muito vento, por causa dos ouvidos, lembraste?
Agora parece o que o ar espalha magia e não dependo tanto da minha memória e das fotos, tenho um cheiro tão teu, que fecho os olhos, viajo e sinto-te comigo e por segundos estás mesmo! Parece que foi uma prenda que recebi neste ano que não estiveste comigo, por isso, agarrei-a sem hesitar e não vou largar nunca! Porque afinal encontrei-te de alguma forma!
01-01-2014

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Larga a capa!


Tira a capa e anda …tira-a e diz ao que vens. Larga o silêncio que fala demais e não deixa perceber afinal o que tanto que queres dizer.

Tira a capa, que já faz tempo que a carregas, aqui e agora sem mais demora, anda para que te possa ver melhor e saiba afinal de que te proteges tanto.

Chegou a hora de a despires, com calma, sem medo, com confiança e acima de tudo com toda a vontade de mostrar apenas o que guardas e  não queres que ninguém veja. E no fundo, mesmo agora, ninguém verá a não ser apenas tu e eu!
 
Só para mim, só para nós, aqui e agora, tira a capa.

 

Taquicardia


Ao palpitar arritmado de um coração louco assim  te escrevo uma carta para que talvez um dia possas lê-la e saber a sensação que causas no meu coração. Escrevo-a e deixo-a debaixo da almofada para o dia em que voltares a deitar-te nesta mesma cama.

Taquicardia diria o médico numa situação normal, que na tentativa entre uns comprimidos e outros talvez passasse. Mas não passou, a medicação não estava correta ou a medição está longe de estar em farmácias ou remédios feitos em casa, a cura está a quilómetros de conseguir alcançar. Assim ponho o meu coração, dentro de uma gaveta para evitar este palpitar que parece que salta corpo fora, que não controlo e que posso acabar por o perder em qualquer virar da esquina. Deixo-o aqui guardado para que ele não cause estragos com a sua arritmia maluca até que eu encontre quem me leve pra lá das fronteiras na procura certa do que ele precisa. Deixo-o aqui protegido de qualquer estrago que possa causar, a ele ou alguém que ao acaso vá a passar.

Por enquanto fica diagnosticado como sendo taquicardia, nos registos médicos, para que saibam que o bater arritmado é o normal do anormal.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Amar

Porque hoje foi tempo de parar no tempo e com o tempo  encontrei algo que gosto.

 "Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita".

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Stop!


Tudo quanto serve para contagem do tempo parou. O relógio deixou de ter horas e o calendário dias. Parou tudo no dia que estivemos juntos só para não ter de te ver partir e não ter que pensar nos dias que passaria sozinha, sem poder voltar a sentir um abraço teu, sobretudo nos dias de em que me sentisse mais só, um olhar atento, aquele olhar que como alguém diria “os teus olhos linda menina, pra quem neles souber ler, dizem mais coisas ainda do que tu sabes dizer” e tu sabes muito bem lê-los, um sorriso de quem admira cada gesto meu ao mais infinito pormenor, tal e qual como só e apenas tu o sabes fazer.
Hoje ganho coragem e olho o calendário, ainda não passou o tempo…ainda nem sequer passou o outono e prometeste que voltavas com o calor, lembraste? O tal que te viu partir e todo este frio, esta chuva que bate na janela teima em deixar-me ainda mais só, mais fria, mais longe de ti. Teima em fazer esta cama ainda maior e gelada e cada vez que o relógio desperta...cada vez que desperta a música, a tal que ponho em replay para dar mais uma volta e continuar a sonhar, a ver se o tempo vai passando, penso que ainda não chegou o dia…pois ainda chove, o calendário ainda não mudou, e apenas foi mais um dia.
Desligo e fico a sentir o teu cheiro que ficou no édredon. Abraço-o tal como se fosses tu e fico mais um pouco e nisto o inverno há-de passar rápido.
Parou tudo, quis que parasse, apenas para ficar aquele momento em que tu e eu fomos um.
Hei-de voltar olhar o calendário e sentir a diferença do tempo e o calor…o tal calor!
O calor de quando estás perto!